
O projeto do BRT-ABC, corredor de ônibus elétricos que promete transformar a mobilidade entre o Grande ABC e a capital paulista, voltou ao centro das críticas do governador Tarcísio de Freitas nesta primeira semana de fevereiro de 2026. Em meio a cobranças públicas e manifestações de insatisfação com o ritmo das obras, o sistema atravessa um momento decisivo. Após uma sequência de atrasos e revisões de cronograma, o projeto enfrenta hoje um cenário de forte pressão política, fiscalização mais rígida e necessidade urgente de apresentar avanços concretos.
Concebido como alternativa ao monotrilho da antiga Linha 18-Bronze, cancelado em 2019, o BRT deveria ter sido entregue em 2024. Agora, a previsão oficial aponta a conclusão total das obras para 2026, mas o cumprimento desse prazo passou a ser visto com cautela por especialistas e pela própria população da região.

A concessionária Next Mobilidade, da família Setti Braga, responsável pela implantação e futura operação do corredor, vem adotando medidas para recuperar o tempo perdido. Entre as ações estão a ampliação das frentes de trabalho, reforço de equipes em campo e ajustes no planejamento de execução.
Nos bastidores da obra, a empresa afirma que estruturas viárias, pavimentação de trechos e construções de estações avançaram nos últimos meses. A estratégia agora é concentrar esforços nos segmentos considerados críticos, onde intervenções viárias complexas e adequações urbanas exigem mais tempo e investimento.
Além do aspecto técnico, o sistema foi concebido para operar com uma frota entre 82 e 92 ônibus 100% elétricos, todos articulados e parte deles no padrão superarticulado, com cerca de 23 metros de comprimento. Os veículos circularão em um corredor exclusivo de aproximadamente 17,5 a 18 quilômetros, ligando o Terminal Paço, em São Bernardo do Campo, à capital paulista, com conexão nas regiões de Sacomã e Tamanduateí.

O projeto prevê ainda 19 estações ao longo do trajeto, com operação estruturada em três tipos de serviço: parador, semiexpresso e expresso, permitindo diferentes padrões de viagem e redução no tempo de deslocamento para quem percorre maiores distâncias.
Estado se posiciona diante dos atrasos nas obras do BRT-ABC

O governador Tarcísio de Freitas tem adotado uma postura cada vez mais firme em relação ao andamento do BRT-ABC. Embora reconheça a importância estratégica do corredor, ele tem demonstrado incômodo com o ritmo das obras e cobrado resultados mais rápidos.
Nos últimos meses, o discurso do governo passou de expectativa para cobrança direta. O Palácio dos Bandeirantes já sinalizou que, caso o cronograma não seja efetivamente cumprido, medidas contratuais podem ser adotadas, incluindo sanções e penalidades previstas na concessão.
A mensagem é clara: o projeto é prioritário e precisa sair do papel dentro de um prazo aceitável para a população.
A ARTESP, agência reguladora que acompanha o contrato, intensificou a supervisão sobre a concessionária. A agência passou a exigir relatórios mais detalhados, revisão de cronogramas e planos de ação específicos para recuperar o atraso acumulado.
Entre as determinações estão a apresentação de um novo planejamento físico-financeiro, definição de prazos por trecho da obra e comprovação de reforço efetivo nas equipes e nas frentes de serviço. O objetivo é garantir que o cronograma reflita a realidade do canteiro e não apenas projeções teóricas.
A atuação mais rigorosa da reguladora demonstra que o Estado pretende acompanhar de perto cada etapa daqui em diante.
Projetos de infraestrutura desse porte envolvem desapropriações, remanejamento de redes, readequações viárias e implantação de sistemas inteligentes de transporte — fatores que aumentam a complexidade e o risco de atrasos.
Ainda assim, o histórico de mudanças no projeto, desde a substituição do monotrilho pelo BRT, alimenta críticas políticas e debates sobre planejamento de longo prazo. Para parte da população, o principal problema não é o modelo adotado, mas o tempo que a solução vem levando para se tornar realidade.

O BRT-ABC é visto como peça-chave para melhorar a ligação entre Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e a capital, com promessa de reduzir o tempo de viagem e oferecer um sistema mais moderno, sustentável e de alta capacidade, apoiado em veículos elétricos de grande porte e operação em corredor segregado.
No entanto, a fase atual é decisiva. Se a aceleração das obras se confirmar, o projeto pode recuperar credibilidade e se consolidar como um marco da mobilidade metropolitana. Caso contrário, o impasse pode evoluir para disputas contratuais e novos capítulos de incerteza.
Para quem depende diariamente do transporte entre o ABC e São Paulo, a expectativa já não é mais por anúncios: é por ver os ônibus circulando.
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