Catraca distante, risco próximo: motoristas de Guarulhos pedem revisão do layout dos ônibus municipais

Assentos Preferenciais posicionados atrás do posto do condutor em um ônibus municipal de Guarulhos. Motoristas criticam a existência destes assentos antes da catraca, considerando-os uma das variáveis que colaboram com a insegurança durante a condução dos coletivos. Foto: Davy Santos/Ônibus Brasil

A forte repercussão da agressão a um motorista em Guarulhos, ocorrida após a interrupção de uma viagem diante de um alagamento, abriu espaço para um debate que há anos circula entre os profissionais da operação, mas raramente ganha visibilidade pública: o impacto direto do layout interno dos ônibus na segurança do motorista e na dinâmica do embarque.

Entre os comentários que surgiram de forma recorrente nas redes sociais, um ponto chamou atenção pela unanimidade entre motoristas de diferentes empresas e linhas: a posição da catraca nos coletivos de Guarulhos.

Um layout que cria conflito

Atualmente, grande parte da frota da cidade opera com a catraca posicionada distante do posto de condução, geralmente no meio do salão. Antes dela, há assentos e espaço suficiente para permanência de passageiros na região frontal do veículo.

Mais exemplos do layout em outro modelo de veículo, este idêntico ao da ocorrência envolvendo as passageiras que agrediram um motorista na cidade. Imagens: Davy Santos/Ônibus Brasil

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Na prática, isso cria uma área onde pessoas podem parar, discutir, aguardar ou circular, permanecendo por mais tempo próximas ao motorista — que, em muitos casos, acumula as funções de condução e cobrança da tarifa.

Segundo motoristas, esse desenho favorece situações de tensão, especialmente em momentos de atraso, interrupção da viagem ou discordância sobre decisões operacionais. A permanência prolongada na parte dianteira do ônibus aumenta a exposição do condutor a pressões verbais e, em casos extremos, a agressões físicas.

A comparação com o ABC Paulista

Nos comentários, muitos profissionais citaram como referência os ônibus do ABC Paulista, especialmente os operados por empresas como a Suzantur, onde a catraca é posicionada imediatamente após a porta de entrada.

Nesse modelo, não há assentos antes do validador e a área frontal funciona essencialmente como um corredor de passagem. O fluxo é direto: o passageiro entra, valida a tarifa e segue para o salão do veículo.

Detalhes do layout utilizado pela Suzantur, do ABC Paulista, na maior parte da sua frota. Condutores alegam que diversos problemas seriam reduzidos com a adoção deste layout nos veículos onde ele é possível. Imagens: Portal Notícias do Transporte.

Motoristas apontam que esse layout reduz significativamente a permanência indevida próxima ao posto de condução, diminui discussões e acelera o embarque, além de criar uma separação mais clara entre o espaço de operação e o espaço dos passageiros. E poderia ser aplicado ao menos nos veículos que não possuem portas à esquerda.

Não é capricho do condutor

Os relatos reforçam que a defesa pela mudança não parte de preferência individual ou conveniência pessoal. Trata-se de uma avaliação prática do dia a dia da operação.

Para quem está ao volante, a diferença entre um layout e outro é sentida de forma imediata: menos pessoas paradas à frente do ônibus significa menos tensão, menos interrupções e mais segurança. Ao mesmo tempo, o embarque se torna mais rápido e organizado, beneficiando também os passageiros.

Um debate que se torna ainda mais atual

A discussão ganha ainda mais relevância diante da renovação recente da frota municipal de Guarulhos. Conforme mostrado em matéria anterior do próprio Notícias do Transporte (NT EXPRESS – Grupo NIFF adquire novos ônibus para o sistema municipal de Guarulhos – Portal Notícias do Transporte), os novos ônibus adquiridos para o sistema municipal, no que tange aos de 3 portas, seguem adotando o mesmo padrão de layout, com assentos posicionados entre o posto do motorista e a catraca, reproduzindo exatamente o desenho apontado pelos motoristas como problemático.

O contraste chama atenção, quando comparamos veículos igualmente novos, da mesma empresa, que estão sendo aos poucos entregues às operações metropolitanas sob gestão da ARTESP, que adotam a catraca posicionada imediatamente após a porta de entrada. Sem assentos na área frontal – nos que não possuem portas à esquerda. Dois padrões distintos de layout convivem no mesmo município, atendendo sistemas diferentes.

Na esquerda, veículo novo padrão Metropolitano ARTESP. O da imagem possui 5 portas, portanto possui assentos na parte dianteira. Porém, outros entregues no mesmo lote, de 3 portas, que estão próximos de iniciar a operação, não possuem os assentos. Na direita, um no padrão Municipal Guarulhos, da Viação Urbana Guarulhos, do mesmo grupo da E.O. Vila Galvão e de lote idêntico aos que ela receberá para o mesmo sistema, todos de 3 portas com assentos antes da catraca. Imagens: Gustavo Bonfate/Mobilidade Guarulhense, e Gildo Vendramini/Caio Induscar.

A agressão ocorrida em Guarulhos evidenciou não apenas os limites técnicos impostos pela infraestrutura urbana, mas também o limite humano de quem precisa tomar decisões operacionais sob pressão constante. Nesse contexto, o projeto interno do ônibus deixa de ser um detalhe estético ou de conveniência e passa a influenciar diretamente o ambiente de trabalho do motorista.

Espaço aberto para o diálogo

O Notícias do Transporte procurou a Guarupass e a Secretaria de Mobilidade Urbana de Guarulhos (SEMOB) para questionar se existem diretrizes técnicas, estudos ou discussões em andamento sobre o posicionamento da catraca nos veículos do sistema municipal. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno das instituições. O espaço permanece aberto para manifestações e eventuais esclarecimentos.

Diante da repercussão, motoristas defendem que a revisão do layout seja tratada como uma medida de segurança operacional e de organização do fluxo, e não apenas como um detalhe de projeto. O tema passa a integrar um debate mais amplo sobre proteção ao trabalhador, eficiência do sistema e respeito a quem opera o transporte coletivo diariamente.

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