
O que começou em 2021 como uma ambiciosa promessa de modernização para substituir a extinta Linha 18-Bronze do Metrô, transformou-se em um imbróglio jurídico e operacional que ameaça deixar um vácuo em média de 103 linhas intermunicipais. O governador Tarcísio de Freitas acionou o “botão de emergência” regulatório, e o termo caducidade — a rescisão punitiva do contrato — deixou de ser apenas uma ameaça para se tornar um processo administrativo real conduzido pela ARTESP.
Agora, no início de 2026, o cenário mudou de tom, o governador confirmou a abertura do procedimento de pré-caducidade, sinalizando uma ruptura com modelos anteriores de constantes repactuações de cronogramas.
O que acontece se o contrato for cassado?
A caducidade não é apenas uma punição à empresa; é uma reorganização forçada de todo o transporte da região. Se o estado levar o processo até o fim:
- Vácuo Operacional: A NEXT Mobilidade detém o monopólio de fato no ABC. A ruptura exigiria uma intervenção estatal ou licitação em massa para TODAS as linhas doque era a área 5 da RMSP, juntamente do Corredor ABD e BRT ABC, já que estão atrelados ao Termo Aditivo nº 13 do Contrato de Concessão EMTUnº 020/1997.
- Risco à Área 5: A caducidade afetaria toda a operação que movimenta mais de 61 milhões de passageiros por ano.
Histórico: Da promessa do monotrilho ao imbróglio do BRT

Em 2019, o projeto da Linha 18-Bronze (Monotrilho) foi cancelado sob a promessa de que o BRT seria entregue em 18 meses. Em 2021, o Termo Aditivo nº 013 selou a prorrogação de 25 anos da concessão em troca da construção do sistema. Contudo, o que era para ser ágil tornou-se um projeto de seis anos que ainda patina em infraestruturas básicas.
A substituição do monotrilho pelo BRT foi conduzida durante a gestão do então governador João Doria, que decidiu transferir a responsabilidade pela implantação do corredor ao grupo privado ligado à concessão existente, sem a realização de um novo processo licitatório específico para a obra e operação do sistema.
A decisão provocou uma profunda reconfiguração no transporte metropolitano do ABC Paulista. O novo modelo acabou eliminando as permissões operacionais de 14 empresas que historicamente atuavam na região, retirando do sistema operadoras tradicionais que, ao longo de décadas, ajudaram a estruturar o transporte coletivo entre os municípios do Grande ABC e a capital paulista. Entre elas estavam:
- Rigras (Nivaldo Aparecido Gomes e família)
- Trans-Bus (família Fogli)
- MobiBrasil (família Chaves)
- VIPE – Viação Padre Eustáquio e Tucuruvi (família Silveira)
- Grupo Baltazar: EAOSA, Viação Riacho Grande, Auto Viação Triângulo, Viação Imigrantes, Viação São Camilo, Empresa Urbana de Santo André e Viação Ribeirão Pires
- Transporte Coletivo Parque das Nações (família Sófio)
- Expresso SBC (família Locosselli)
Antes da reestruturação do sistema metropolitano, as empresas que operavam na região do ABC Paulista somavam aproximadamente 678 ônibus. Atualmente, com a operação concentrada na Next Mobilidade, a frota gira em torno de 550 veículos. No Corredor ABD, houve redução no número de ônibus, passando de cerca de 253 para 205 veículos, embora a capacidade de transporte tenha sido ampliada com a adoção de veículos de maior porte.
Grande parte dessas empresas possui gestão familiar e atuação histórica no ABC Paulista, muitas delas responsáveis pela consolidação das primeiras linhas intermunicipais da região. Desde meados de 2005, discussões sobre uma possível licitação do sistema metropolitano já vinham sendo levantadas. Contudo, empresários do setor demonstravam resistência ao modelo proposto pelo poder público, alegando riscos de desequilíbrio econômico-financeiro, defasagem tarifária acumulada e insegurança operacional para a continuidade das operações.




Empresas ligadas ao grupo Baltazar em seus últimos dias de operação
Por outro lado, empresas ligadas ao Grupo ABC / família Setti Braga, como a Auto Viação ABC, a Empresa de Transporte Publix e a Metra Transportes, responsável pela operação do tradicional Corredor ABD, não foram impactadas da mesma forma pela reestruturação. A partir do novo modelo institucional surgiu a ABC Sistema de Transporte SPE S.A., que passou a operar sob a marca Next Mobilidade, assumindo a implantação e futura operação do BRT-ABC e consolidando a presença do grupo no novo arranjo do transporte metropolitano da região.
O gargalo dos semáforos e os terminais “invisíveis”

Diferente do marketing tecnológico, o problema estrutural do BRT-ABC reside na falta de segregação total. Enquanto o Monotrilho previa trajeto em 29 minutos com segregação total elevada, o BRT, mesmo expresso, deve levar 40 minutos — tempo vulnerável aos inúmeros semáforos e interferências viárias que impactam diretamente a velocidade operacional.
A execução física dos terminais é o maior símbolo dessa crise:
- Terminal São Bernardo: Apesar de ser um nó vital, o terminal só viu suas primeiras pilastras e estruturas básicas serem instaladas agora, em 2026, com anos de atraso.
- A Incógnita do Sacomã: O projeto carece de transparência sobre como o terminal comportará o fluxo do BRT, sem definições claras para a população a poucos meses do prazo.
- Cronograma da Frustração: A sete meses da “inauguração” em outubro de 2026, o governo já admite que o avanço “tímido” deve empurrar a entrega real para 2027.
O outro lado: A defesa da NEXT Mobilidade
A concessionária tenta suavizar o impacto das críticas. Segundo notas oficiais repercutidas em diversos portais, a empresa alega que os atrasos são decorrentes da demora na emissão de licenças ambientais e da dependência de outras concessionárias para intervenções na rede elétrica.
A NEXT reforçou que a entrega em outubro de 2026 ainda é factível até hoje, mudando o discurso para o inicio de 2027 e destaca a chegada de uma frota inicial de 20 superarticulados elétricos. No entanto, do ponto de vista regulatório, o contrato já estabelecia que a gestão dessas interferências era responsabilidade da própria concessionária.
Conclusão: O destino da concessão
O processo de pré-caducidade é o sintoma de um modelo que priorizou a conveniência política em detrimento do planejamento técnico. Se a NEXT Mobilidade não demonstrar uma mudança drástica até outubro de 2026, o ABC pode enfrentar um vácuo operacional sem precedentes. Por ora, o BRT-ABC permanece como o símbolo de uma difícil travessia entre o contrato idealizado e a dura realidade das ruas.
Onde a promessa virou “Fake News” na mídia especializada e antes confiável
Muitas foram as promessas durante o desenvolvimento do projeto, e muitas ações sequer fizeram sentido, como por exemplo o fato do veículo protótipo ter seu primeiro registro em 30/11/23 na fábrica e sua primeira saída da mesma em 10/04/24, porém só vir a ser testado operacionalmente agora, após uma ameaça de pré-caducidade e em um viário de outra operação, pois o BRT sequer tem um trecho parcial completo para compreender os mesmos, o que é bem alarmante, mas não foi só isso.
Abaixo, listamos as principais discrepâncias entre o que foi sinalizado pela “mídia especializada” (com base nos dados da operadora) e a realidade material de 2026:
- A Frota
- O que foi dito: Em agosto de 2025, o Diário do Transporte publicou com exclusividade que “todos os ônibus” do BRT-ABC seriam da nova carroceria Caio eMillennium BRT, com tecnologia nacional de ponta e design inovador.
- A realidade: Os 20 primeiros carros entregues em março de 2026 não apenas não ostentam a carroceria eMillennium BRT, como sequer utilizam a tecnologia e-trol (recharge in motion) prometida para todo o sistema, operando apenas como veículos a bateria convencionais.
- A Tecnologia da Frota
- O que foi dito: Até a chegada dos 20 primeiros carros da frota operacional, a mídia ostentava números garantindo e reiterando que a frota seria operada exclusivamente por uma frota entre 82 e 92 veículos e-Trol, por sua vantajosidade.
- A realidade: e-Trol está garantido na operação, mas Devido às características de infraestrutura de fornecimento de energia elétrica, é essencial que parte da frota opere com um sistema elétrico puro (sem fio)
- O Terminal
- O que foi dito: Em 22 de abril de 2024, o Diário do Transporte publicou sem confirmação oficial, erroneamente que o futuro Terminal São Bernardo já estaria recebendo cobertura, oque na verdade era a demolição parcial do antigo Terminal Urbano
- A realidade: Quase 3 anos depois, o novo terminal começa a tomar forma, mas ainda sim, sem nenhuma cobertura aparente, visto que a o mesmo possuirá um mezanino, oque torna a execução das obras mais complexa
- As Linhas
- O que foi dito: Em diversas matérias, foi reiterado que a linha expressa integraria os Terminais São Bernardo, Tamanduateí e Sacomã
- A realidade: Nos mapas oficiais, plantados nas paradas, é nitido que a linha expressa teria como destino o Terminal Tamanduateí, e o usuário necessitaria baldear para as outras linhas para chegar ao Sacomã
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