
O plano de eletrificação do transporte público em São José dos Campos (SJC), uma das principais bandeiras da atual gestão, enfrenta um “banho de realidade” operacional. O Contrato 033/25 , assinado em 7 de março de 2025 com a Green Energy S.A. para a locação de 400 veículos por R$ 2,718 bilhões, registra atrasos que já forçam a prefeitura a discutir uma reprogramação do cronograma original.
Compromisso?
Até janeiro de 2026, a expectativa era de que 80 ônibus elétricos já estivessem integrados ao sistema. No entanto, apenas 20 veículos foram entregues até o momento — o que representa apenas 25% do total previsto para o período.
A situação pode se agravar nos próximos meses: a chegada de outros 60 veículos, prevista para março será alterada. O prefeito Anderson Farias confirmou que o planejamento está sendo revisto em conjunto com o BNDES (financiador do projeto) e a Secretaria de Mobilidade.
Em termos práticos, o cenário em São José dos Campos é alarmante. Após um ano de vigência do contrato, a Green Energy S.A. entregou apenas 5% da frota total (20 ônibus de um total de 400). Pelo cronograma de metas, a cidade já deveria contar com pelo menos 140 veículos elétricos nas ruas, o que representaria 35% do projeto em operação.
Isso significa que o sistema já opera com um déficit real de 30% de toda a frota prometida. São 120 ônibus que, por contrato, deveriam estar transportando passageiros, mas seguem inexistentes na malha urbana.
A conta é simples, mas o prejuízo é complexo:
- Realidade: 20 veículos (5%).
- Expectativa Contratual: 140 veículos (35%).
- O “Buraco”: 120 veículos atrasados (30% da frota total).
Como o risco de fabricação e entrega é integralmente da contratada (conforme o item 9.2.11 da Matriz de Riscos), a justificativa de “problemas com fornecedores” não apaga o fato de que, em SJC, a eletromobilidade atingiu um feito irônico: o ônibus já consegue estar atrasado no ponto antes mesmo de sair da linha de montagem

A Conexão com o ABC
A Green Energy é presidida por Edinaldo da Silva Carvalho e tem entre seus acionistas a família Setti & Braga, tradicional operadora do transporte no ABC Paulista (Next Mobilidade). O cenário em SJC espelha os problemas vividos no BRT ABC, onde atrasos na execução resultaram em multas milionárias e pressão sobre os contratos.
Justificativas e prazos
De acordo com a prefeitura, o atraso está ligado a dificuldades no fornecimento de matérias-primas por parte dos fornecedores da Green Energy. A administração municipal agora avalia se o descumprimento ocorreu por falta de capacidade operacional da empresa ou por fatores externos inevitáveis.
- Posicionamento do Prefeito: Anderson Farias afirmou que a aceitação de uma nova programação depende da comprovação de que o atraso foi motivado por terceiros.
- Expectativa: Apesar do cenário atual, o prazo final para que toda a frota de 400 ônibus esteja em operação segue mantido para setembro de 2026.


Matriz de riscos: Contrato blindado contra desculpas de fornecedores
Embora a administração municipal avalie se o atraso foi causado por “terceiros”, o Contrato 033/25 é taxativo na sua Cláusula Nona ao listar o que é de responsabilidade exclusiva da Green Energy S.A.:
- Atrasos na Fabricação e Entrega: O subitem 9.2.11 define que atrasos na fabricação, disponibilização ou entrega da frota são riscos assumidos inteiramente pela contratada.
- Estimativas de Prazos: O subitem 9.2.6 reforça que estimativas incorretas de prazos para atendimento do contrato não podem ser usadas para pedir reequilíbrio ou justificar mora.
- Falhas na Cadeia de Suprimentos: O subitem 9.2.19 (também presente no contrato integral) deixa claro que interrupções ou falhas na cadeia de fornecedores são riscos da empresa.
- Negligência ou Inépcia: O subitem 9.2.5 atribui à contratada qualquer perda econômica decorrente de falhas ou omissões na execução.
Na prática, isso significa que, juridicamente, o argumento de “problemas com fornecedores de peças” já foi antecipado pelo contrato como um risco que a Green Energy aceitou ao assinar o documento. Qualquer tentativa de “reprogramação” sem penalidade pode configurar uma flexibilização excessiva de um contrato de R$ 2,7 bilhões que já previa esses gargalos.
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