
A Prefeitura de Campinas, no interior de São Paulo, retomou oficialmente o processo para definir os futuros operadores do transporte público coletivo da cidade. Após a anulação da etapa anterior pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), o município republicou nesta quinta-feira (8) o edital da Concorrência nº 15/2025 e estabeleceu um novo calendário para a disputa.
A nova sessão pública está marcada para 18 de dezembro de 2026, às 14h, na sede da B3, em São Paulo. Antes disso, as empresas interessadas deverão entregar os envelopes com suas propostas no dia 11 de dezembro.
A nova rodada mantém a estrutura geral da concessão, mas traz valores atualizados e incorpora adequações determinadas após os questionamentos do TCE-SP.
Nova concessão passa de R$ 13 bilhões
O novo edital estima uma remuneração global de R$ 13,077 bilhões ao longo dos 15 anos de concessão.
Desse total, R$ 12,47 bilhões estão relacionados diretamente à operação do transporte coletivo, enquanto outros R$ 602,4 milhões correspondem aos serviços complementares de bilhetagem, gerenciamento e monitoramento operacional.
A divisão estimada é de aproximadamente R$ 7,3 bilhões para o Lote Norte e R$ 5,16 bilhões para o Lote Sul.
O edital também prevê cerca de R$ 1,94 bilhão em investimentos, distribuídos entre renovação e estrutura operacional dos dois lotes e os serviços complementares.
O valor, portanto, não representa um pagamento imediato da Prefeitura às empresas. Trata-se da estimativa de remuneração durante todo o período contratual.
Lotes Norte e Sul continuam
A organização do sistema permanece dividida em dois grandes lotes.
O Lote Norte reúne as regiões Norte, Oeste e Noroeste de Campinas, enquanto o Lote Sul contempla as regiões Leste, Sul e Sudoeste.
Além da operação convencional dos ônibus, a concessão também envolve o PAI-Serviço, destinado ao atendimento de pessoas com deficiência ou redução severa de mobilidade, além dos serviços relacionados aos terminais e às estações do BRT.
Também permanece prevista uma estrutura específica para os serviços de bilhetagem, gerenciamento e monitoramento operacional.
Tarifa de remuneração não é a passagem paga pelo usuário
Um dos pontos que merece atenção na nova disputa é o critério utilizado para escolher as empresas.
O julgamento será feito pela menor Tarifa de Remuneração de Julgamento, com teto de R$ 12,48 para o Lote Norte e R$ 11,59 para o Lote Sul.
Esses valores, porém, não representam a tarifa pública paga pelo passageiro para embarcar nos ônibus.
O modelo considera diferentes componentes da operação, incluindo oferta de serviço, demanda transportada e utilização da infraestrutura. A remuneração também ficará relacionada ao desempenho operacional, permitindo que indicadores de qualidade influenciem os pagamentos às concessionárias.
Dessa maneira, a nova modelagem busca vincular parte da remuneração ao cumprimento de parâmetros como regularidade, pontualidade e qualidade do serviço.
Eletrificação continua no projeto
A nova concessão também mantém a perspectiva de modernização da frota.
A documentação contempla ônibus elétricos e estabelece regras específicas para esses veículos, além de parâmetros de idade para os demais modelos.
Para os veículos convencionais, o edital trabalha com diferentes exigências de idade e tecnologia de motorização. Os ônibus Euro 6 aparecem como referência para a redução das emissões, enquanto veículos Euro 5 podem ser utilizados dentro das condições previstas no contrato, com impacto na remuneração.
A nova documentação também estabelece regras relacionadas aos créditos de carbono provenientes da utilização da frota elétrica.
A eletrificação já fazia parte das discussões anteriores sobre a nova concessão de Campinas. Modelagens anteriores chegaram a trabalhar com números diferentes de ônibus elétricos, razão pela qual os quantitativos devem ser analisados conforme a versão atualmente republicada do edital.
Bilhetagem terá participação da Emdec
Outro ponto de destaque está no modelo de bilhetagem e monitoramento.
O novo desenho prevê a criação de uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) envolvendo os operadores dos dois lotes e a Emdec, empresa municipal responsável pela gestão do transporte.
A participação da Emdec será de 1%, enquanto os demais percentuais serão distribuídos entre os operadores dos lotes Norte e Sul.
A estrutura busca ampliar a participação do poder público no acompanhamento da arrecadação, do monitoramento operacional e dos dados do sistema.
Sancetur e Consórcio Grande Campinas haviam vencido a disputa
A nova licitação acontece depois de um resultado que, na prática, deixou de existir.
Na disputa realizada em 5 de março de 2026, a Sancetur – Santa Cecília Turismo Ltda. venceu o Lote Sul ao apresentar tarifa de remuneração de R$ 9,54, representando deságio de 14,9% em relação ao teto então estabelecido.
No Lote Norte, o vencedor foi o Consórcio Grande Campinas, que apresentou tarifa de R$ 9,49, com deságio de 19,3%.
Naquele momento, a disputa foi considerada um dos principais avanços do processo de concessão, que já acumulava anos de tentativas.
O próprio Notícias do Transporte acompanhou a abertura das propostas e destacou a vitória da Sancetur e do Consórcio Grande Campinas.
Sancetur e Grande Campinas vencem licitação para a concessão do Transporte Público Coletivo
Entretanto, os resultados não chegaram a se transformar em novos contratos.
TCE-SP colocou o processo sob pressão
Antes mesmo da anulação definitiva, o processo passou por uma série de questionamentos.
Em abril, o TCE-SP determinou que a Prefeitura não homologasse a licitação enquanto eram analisados apontamentos envolvendo possíveis vínculos entre empresas que participaram da concorrência.
O tema ganhou ainda mais atenção porque o levantamento realizado pelo Notícias do Transporte, antes da realização do leilão, já havia identificado uma concentração de grupos empresariais entre diferentes participantes formalmente apresentados como concorrentes.
Licitação do transporte de Campinas evidencia concentração de grupos empresariais na disputa
Posteriormente, o portal também acompanhou a decisão da Prefeitura de habilitar formalmente a Sancetur e o Consórcio Grande Campinas, mesmo com o processo ainda sendo analisado pelo Tribunal.
Anulação ocorreu por problemas no procedimento
Em 19 de agosto, o plenário do TCE-SP determinou a anulação da licitação.
Entre os principais problemas analisados estavam alterações promovidas na modelagem econômico-financeira durante o andamento do processo sem a correspondente reabertura integral do prazo para apresentação das propostas.
Também foram questionados aspectos relacionados à análise da exequibilidade das propostas e à formalização da fundamentação técnica utilizada no julgamento.
Importante destacar que o Tribunal não confirmou a existência de conluio entre as empresas participantes como fundamento para a anulação.
O município posteriormente formalizou a anulação dos atos praticados a partir da publicação do edital, preservando os estudos e elementos da fase preparatória que pudessem ser aproveitados na nova etapa.
O Notícias do Transporte acompanhou diretamente essa decisão.
TCE-SP anula licitação de R$ 11,8 bilhões do transporte de Campinas por irregularidades no processo
Processo já havia enfrentado outras tentativas
A atual licitação não representa a primeira tentativa de Campinas de reorganizar a concessão do transporte coletivo.
O município vem tentando estruturar uma nova concessão há vários anos. Em 2023, uma concorrência chegou a ser republicada após ajustes, mas terminou sem nenhuma proposta apresentada.
O histórico também inclui suspensões determinadas por órgãos de controle, mudanças de modelagem, consultas públicas e sucessivos adiamentos.
A atual Concorrência nº 15/2025 começou a ganhar forma com a publicação do edital no final de 2025, depois de uma nova rodada de estudos e participação pública.
Antes da realização do leilão de março de 2026, o próprio edital ainda passou por ajustes após questionamentos de interessados.
O Notícias do Transporte também acompanhou essa etapa quando a Prefeitura revisou o edital após uma impugnação apresentada pela Sancetur.
Campinas revisa edital do transporte após impugnação apresentada pela Sancetur
O que muda daqui para frente?
Com a republicação do edital, a disputa começa novamente do ponto de vista das propostas econômicas.
Isso significa que os valores apresentados pela Sancetur e pelo Consórcio Grande Campinas em março não estão automaticamente preservados.
As empresas que desejarem participar terão de apresentar novas propostas dentro das condições estabelecidas no edital republicado.
O primeiro marco será 11 de dezembro, quando os envelopes deverão ser entregues na B3.
Já em 18 de dezembro, serão abertas as propostas econômicas e realizada a etapa de disputa entre os participantes.
Depois disso, ainda haverá análise de habilitação, eventuais recursos, adjudicação, homologação, assinatura dos contratos e implantação da nova operação.
Portanto, o leilão de dezembro não significa que os novos ônibus começarão a circular imediatamente.
A mudança efetiva do sistema dependerá da conclusão de todas as etapas administrativas e do cumprimento das obrigações previstas para a transição.
Campinas entra novamente em uma disputa decisiva
Depois de quase uma década de tentativas, Campinas chega novamente ao momento de escolher os operadores de seu sistema de transporte coletivo.
A diferença, desta vez, é que o município chega à nova rodada após uma decisão expressa do TCE-SP que obrigou a correção do procedimento anterior.
O desafio agora será transformar a republicação do edital em uma disputa efetivamente válida, evitando que os problemas que marcaram a concorrência anterior voltem a comprometer o processo.
Para os passageiros, a expectativa está principalmente na renovação da frota, na chegada dos ônibus elétricos, na modernização da bilhetagem e no cumprimento das metas de qualidade previstas na nova concessão.
Mas, antes disso, Campinas ainda terá de passar novamente pela B3 e definir quem serão, de fato, os operadores responsáveis pelo transporte coletivo da cidade pelos próximos 15 anos.
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