ARTESP transforma processo e abre caminho para caducidade do contrato da Next Mobilidade no ABC

Conselho Diretor da agência determinou a abertura do processo administrativo de caducidade após reconhecer o descumprimento de prazos para implantação do BRT-ABC; contrato ampliado na gestão João Doria também foi alvo de questionamentos por ter sido prorrogado sem nova licitação

A situação envolvendo a Next Mobilidade e o BRT-ABC entrou em uma nova e mais delicada etapa. A ARTESP determinou a conversão do procedimento que vinha apurando os atrasos na implantação do corredor em um Processo Administrativo de Caducidade, ampliando a possibilidade de encerramento do contrato de concessão caso as justificativas apresentadas pela empresa não sejam consideradas suficientes.

A decisão ocorre após o Estado concluir que os prazos estabelecidos para a implantação do BRT-ABC não foram cumpridos e que, neste momento, não existem condições técnicas e operacionais para que o empreendimento seja colocado em operação conforme o cronograma estabelecido.

O procedimento ainda não representa a retirada imediata da Next Mobilidade da concessão. A empresa deverá ser intimada e terá direito de apresentar sua defesa. Somente após a análise das manifestações e de todo o processo administrativo poderá haver uma decisão definitiva sobre a eventual caducidade do contrato.

Uma concessão que nasceu de uma antiga relação contratual

A atual estrutura da Next Mobilidade está diretamente ligada ao tradicional grupo empresarial da família Setti Braga, que possui uma longa trajetória no setor de transporte coletivo do ABC Paulista.

O grupo já era responsável pelo Corredor Metropolitano ABD, por meio da Metra, além de outras duas permissionárias: Auto Viação ABC e Empresa de Transporte Publix, quando o governo paulista decidiu modificar profundamente o modelo de transporte metropolitano da região.

Durante a gestão do então governador João Doria, o Estado optou por uma solução que dispensou uma nova licitação para a formação do sistema atualmente operado pela Next. O contrato existente do Corredor ABD foi prorrogado antecipadamente por mais 25 anos, com a inclusão de novas obrigações e investimentos.

A alteração contratual passou a contemplar, entre outros pontos, a construção do BRT-ABC, a modernização do Corredor ABD e a incorporação das linhas metropolitanas que pertenciam à antiga Área 5 da EMTU, fazendo com que o grupo ligado à família Setti Braga assumisse uma operação muito mais ampla no ABC.

A medida foi alvo de questionamentos judiciais justamente por envolver uma ampliação de grande dimensão sem a realização de uma nova licitação específica para a concessão da Área 5.

O tema chegou ao Supremo Tribunal Federal, que em 2023 formou maioria para validar o modelo adotado pelo Estado e rejeitar o questionamento que buscava derrubar os atos que permitiram a extensão contratual.

Assim, a origem da atual concessão é diferente de uma licitação tradicional: trata-se da ampliação e prorrogação de um contrato preexistente, com novas obrigações incorporadas ao acordo.

A força do Grupo Setti Braga no transporte do ABC

A família Setti Braga possui uma presença histórica no transporte da região e construiu, ao longo de décadas, um conglomerado com atuação em diferentes segmentos.

Atualmente, os negócios do grupo incluem empresas ligadas ao transporte coletivo, tecnologia e fabricação de veículos e equipamentos para mobilidade, além de redes de fast food e funerárias.

No transporte público do ABC, a presença empresarial do grupo é expressiva. A Next Mobilidade responde pela operação metropolitana na região, enquanto outras empresas ligadas ao grupo também possuem participação relevante em operações municipais e outros serviços de transporte.

Foi dentro desse contexto empresarial que surgiu a atual configuração da concessão que envolve o BRT-ABC.

A operação ampliada, entretanto, veio acompanhada de uma obrigação considerada estratégica para a mobilidade regional: entregar um novo sistema de transporte de alta capacidade ligando o ABC à Capital.

O BRT-ABC como contrapartida

A extensão do contrato não ocorreu sem novas obrigações.

Entre as principais contrapartidas assumidas pela concessionária estava a implantação do BRT-ABC, concebido para substituir, no planejamento estadual, a antiga proposta da Linha 18-Bronze do Metrô.

O corredor foi planejado para conectar São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul e São Paulo, com aproximadamente 17,3 quilômetros de extensão, estações e terminais próprios e operação prevista com ônibus elétricos.

A expectativa era de que o novo sistema representasse uma mudança importante na mobilidade do ABC, oferecendo uma ligação mais rápida entre a região e a rede metroferroviária da Capital.

O problema é que a obra passou a acumular atrasos.

Contrato deveria entregar o BRT antes

O cronograma original previa a conclusão do empreendimento em 2024.

A data não foi cumprida.

Desde então, novos cronogramas foram apresentados e sucessivamente acompanhados pelo poder público. Em 2026, o governo paulista passou a pressionar pela conclusão do empreendimento, enquanto a ARTESP aumentou a fiscalização sobre o cumprimento das obrigações contratuais.

Em setembro, uma inspeção apontou pendências que, segundo a agência, impediam naquele momento o início da operação do sistema.

A Next Mobilidade apresentou entendimento diferente e afirmou que o primeiro trecho estava concluído e poderia entrar em operação, contestando a existência de problemas técnicos capazes de inviabilizar sua abertura.

Governo passou a admitir uma nova licitação

A possibilidade de rompimento do contrato ganhou força quando o governador estadual, Tarcísio de Freitas, reeleito para a gestão 2027-2030, passou a admitir publicamente que poderia recorrer à caducidade caso a concessionária não entregasse o BRT-ABC.

Acesse e confira depoimento do governador: VÍDEO: Tarcísio diz que contrato do BRT-ABC poderá ser caducado e cogita licitação no ABC Paulista.

A discussão ganhou ainda mais peso porque uma eventual caducidade não atingiria apenas o corredor em construção.

O contrato envolve também a operação das linhas metropolitanas da antiga Área 5, que atende Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, além das ligações com a Capital.

Por isso, uma eventual extinção do contrato obrigaria o Estado a estruturar uma solução para a continuidade de todo esse sistema.

Em setembro, o governo também passou a mencionar a possibilidade de uma nova licitação para a Área 5, caso a Next não cumprisse as obrigações relacionadas ao BRT.

Agora, a caducidade entrou oficialmente no processo

A diferença entre o cenário atual e os meses anteriores é justamente o estágio administrativo.

Até então, a possibilidade de caducidade era tratada como uma alternativa diante dos sucessivos atrasos.

Agora, a ARTESP instaurou formalmente o processo administrativo de caducidade.

A agência considerou que a concessionária teve oportunidades para cumprir os prazos estabelecidos, mas que os objetivos previstos em seu plano de ação não foram alcançados.

Também foi constatado que o sistema não apresentava, dentro do prazo esperado, condições técnicas e operacionais para o início da operação do BRT-ABC.

Isso coloca a Next diante de uma etapa decisiva.

A empresa ainda poderá apresentar suas alegações e sua defesa antes de uma decisão definitiva.

O que pode acontecer com o ABC

Caso a caducidade seja efetivamente decretada, o Estado terá de organizar uma transição para garantir que o transporte metropolitano continue funcionando enquanto define o futuro da concessão.

Entre os caminhos possíveis está a realização de uma nova licitação para a operação da Área 5, hipótese que já passou a ser considerada pelo governo paulista.

Também será necessário definir como ficará a conclusão do próprio BRT-ABC, uma obra que foi utilizada como uma das principais contrapartidas para justificar a ampliação e a prorrogação do contrato firmado na gestão João Doria.

O caso, portanto, vai muito além de uma discussão sobre o atraso de uma obra.

Está em jogo o futuro de uma concessão que nasceu da ampliação de um contrato existente, passou a concentrar a operação metropolitana do ABC nas mãos de um dos grupos empresariais mais tradicionais da região e incorporou uma das maiores promessas de transformação da mobilidade regional.

Agora, a mesma concessão que foi ampliada para viabilizar o BRT-ABC pode estar diante da possibilidade de ser encerrada por causa do não cumprimento das obrigações relacionadas ao empreendimento.

A Next Mobilidade ainda terá direito à defesa, e a decisão final dependerá da conclusão do processo administrativo. Até lá, o futuro da operação metropolitana do ABC e do próprio BRT-ABC permanece em aberto.


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