
A investigação sobre a suposta infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte coletivo de São Paulo ganhou novos contornos nesta semana e passou a levantar uma questão que vai além das prisões e operações policiais: até onde a estrutura do poder público conseguiu identificar e interromper as possíveis conexões entre empresas de ônibus, empresários, agentes políticos e contratos públicos?
A Operação Vectura Corrupta, deflagrada em 17 de setembro pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil, investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, utilização de pessoas interpostas, influência em licitações e contratos públicos, corrupção e infiltração do crime organizado no setor de transporte.
Segundo os documentos analisados na investigação, 12 empresas de ônibus aparecem no contexto das apurações. Nem todas, porém, são concessionárias que atualmente operam na capital, e as suspeitas atribuídas a cada uma são diferentes.
O dado que chama atenção: 43 gestores
Em agosto, a Polícia Civil pediu à Justiça o afastamento de 43 pessoas ligadas à administração de nove empresas de ônibus, além de uma intervenção da SPTrans nessas operadoras.
A medida alcançaria empresas como A2 Transportes, Alfa Rodobus, Allianz (atual Allibus), Imperial (atual Transunião), MoveBus, Norte Buss, Pêssego, Spencer e Transcap (atual AutoBless).
A proposta incluía impedir os investigados de exercer funções administrativas, acessar garagens, votar em assembleias e receber determinados valores, além de preservar o caixa das empresas.
O Gaeco, entretanto, não concordou naquele momento com o afastamento coletivo.
A justificativa apresentada foi a falta de individualização suficiente da atuação de cada um dos 43 gestores e o risco de uma saída simultânea provocar descontinuidade do transporte público.
A decisão é particularmente importante porque mostra que o próprio combate à possível infiltração criminosa precisa lidar com uma dificuldade prática: como afastar pessoas sob investigação sem colocar em risco a operação de um serviço essencial?
Senival Moura e a Transunião

Um dos episódios anteriores à Vectura foi a Operação Última Parada, deflagrada em 25 de junho de 2026 pelo Gaeco e pela Polícia Civil.
A operação levou à prisão temporária do vereador Senival Moura (PT), então primeiro-secretário da Câmara Municipal de São Paulo e presidente da Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica.
A investigação tinha como foco a Transunião, empresa que opera linhas de ônibus na zona leste da capital. Segundo o Ministério Público e a Polícia Civil, a companhia teria sido utilizada para movimentar e ocultar recursos atribuídos ao PCC. A apuração começou após o assassinato de Adauto Soares Jorge, então presidente da empresa, em 2020.
Os investigadores sustentam que existiria um núcleo paralelo de gestão responsável por decisões estratégicas e movimentações financeiras da empresa. Em documentos analisados pela polícia, Senival é apontado como alguém que teria exercido influência sobre essa estrutura, embora não integrasse formalmente o quadro societário da Transunião.
A operação também resultou em medidas contra outros integrantes ligados à companhia e determinou bloqueios patrimoniais e a intervenção na Transunião.
A prisão de Senival, entretanto, não significa condenação. Em agosto, a Justiça de São Paulo determinou a soltura do vereador após considerar ilegal a extensão da prisão temporária. Ele permanece investigado no caso.
O episódio é importante para a cronologia porque mostra que, antes mesmo da Vectura Corrupta, já havia uma investigação relacionando uma empresa concessionária, suspeitas de lavagem de dinheiro e um agente político com atuação direta no debate sobre transporte da capital.
A2 entra no centro da crise

A A2 Transportes acabou se tornando o principal caso concreto após a operação.
O empresário Paulo Sirqueira Korek Farias, diretor-presidente da empresa, aparece entre os investigados. Segundo os documentos, ele também está ligado à Translíder.
A investigação menciona, entre outros pontos, a negociação de 63 ônibus da Translíder por R$ 1,26 milhão. Segundo a apuração policial, parte dos valores teria sido depositada em uma conta da A2.
Também são citados pagamentos de R$ 825.880 entre novembro de 2019 e janeiro de 2020 e outro depósito de R$ 100 mil relacionado à empresa. A Polícia Civil sustenta que pessoas formalmente ligadas à Translíder seriam, na realidade, intermediários ligados a Korek. Essas afirmações são teses da investigação e ainda dependem de contraditório e julgamento.
Após a operação, a Prefeitura de São Paulo determinou que a A2 afastasse Paulo Korek e Júlio Salvador Filho de suas funções em 24 horas. Caso contrário, a administração municipal informou que poderia decretar intervenção preventiva.
A atualização mais recente, porém, mudou o cenário: a intervenção na A2 foi, por enquanto, descartada após o afastamento de Paulo Korek da direção.
O caso Milton Leite

Outro nome de grande repercussão é o do ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil).
A decisão judicial, traz declarações de policiais segundo as quais Leite “seria o dono de fato” da Transwolff.
A expressão, porém, é uma alegação presente nos documentos da investigação e não significa que a Justiça tenha reconhecido definitivamente essa condição.
A Transwolff já havia sido alvo da Operação Fim da Linha, em 2024. Na ocasião, a Prefeitura realizou uma intervenção na empresa e posteriormente encerrou o contrato.
O caso de Milton Leite ganha importância porque coloca novamente em discussão a relação entre empresas de transporte, empresários e agentes políticos. O ex-vereador nega as acusações.
A SPTrans também aparece

A investigação não ficou restrita aos empresários.
O ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, foi preso na operação.
Segundo os investigadores, ele teria mantido encontros periódicos com José Daniel Satilite, apontado como um dos intermediários entre integrantes da facção, empresários, advogados e pessoas ligadas ao meio político.
Os encontros, segundo a investigação, teriam relação com interesses envolvendo empresas de transporte, especialmente após a Operação Fim da Linha.
Levi é funcionário de carreira da SPTrans há décadas e, segundo declaração do prefeito Ricardo Nunes, sua prisão foi recebida com surpresa pela administração municipal.
O futebol também aparece
Outro elo citado na investigação é o empresário Paulo Korek, ligado à A2 e à Translíder e presidente do Esporte Clube Água Santa, de Diadema.
O episódio, entretanto, mostra como alguns dos personagens envolvidos transitam por diferentes áreas: transporte, empresas, política e esporte.
A pergunta que fica sobre as intervenções
São Paulo já passou por intervenções em empresas investigadas.
A Transwolff e a UPBus foram alvo de intervenção em 2024 e posteriormente deixaram o sistema municipal.
Agora, diante da Vectura Corrupta, a Polícia Civil chegou a defender uma intervenção mais ampla, envolvendo nove empresas e 43 gestores.
O Gaeco, entretanto, avaliou que uma medida dessa dimensão poderia provocar descontinuidade do serviço e que ainda era necessário individualizar melhor as condutas.
É justamente nesse ponto que surge uma questão que merece ser acompanhada de perto:
qual é o limite entre preservar o transporte público e preservar uma estrutura empresarial que está sob investigação?
Intervir pode ser necessário para impedir que determinados dirigentes continuem administrando uma empresa.
Mas, por outro lado, uma intervenção não significa automaticamente que o contrato de concessão tenha sido encerrado.
E essa diferença é fundamental.
Afinal, quem fiscaliza quem?
O caso também levanta uma discussão sobre o modelo de fiscalização.
Uma empresa recebe recursos públicos, administra linhas, mantém veículos, emprega trabalhadores e presta um serviço essencial.
Se posteriormente surgem suspeitas de que pessoas ligadas à sua administração poderiam ter relações com uma organização criminosa, a pergunta não deveria ser apenas quem será preso?
Também é necessário saber:
quem fiscalizou a empresa?
Quem acompanhou sua estrutura societária?
Quem verificou seus beneficiários econômicos?
Quem analisou seus contratos e movimentações?
Quais mecanismos impediram que as suspeitas chegassem ao sistema?
E, principalmente:
o que acontece depois da intervenção?
O problema não termina na operação policial
A Vectura Corrupta ainda está em fase de investigação.
Não existem condenações definitivas contra os citados, e as acusações deverão ser submetidas ao contraditório e à análise da Justiça.
Mas os documentos revelados até agora colocam o transporte público diante de uma questão que não pode ser ignorada.
O problema não é apenas retirar uma pessoa da direção de uma empresa.
É descobrir se existe uma estrutura maior por trás dela.
Porque, se a suspeita for confirmada, afastar um dirigente pode resolver apenas uma parte do problema.
A experiência de Transwolff, UPBus, Transunião e agora A2 mostra que o poder público precisa equilibrar duas obrigações: garantir que os ônibus continuem circulando e, ao mesmo tempo, impedir que contratos públicos sejam utilizados por estruturas ilícitas.
No fim, a pergunta é simples, mas a resposta não:
de que adianta intervir em uma empresa se a estrutura que permitiu o problema continua existindo?
O desafio para São Paulo agora não é apenas descobrir quem está envolvido.
É entender como essas conexões chegaram ao transporte público, por quanto tempo permaneceram sem serem identificadas e quais mecanismos serão adotados para impedir que o problema volte a acontecer.
Enquanto isso, milhões de passageiros continuam entrando nos ônibus todos os dias.
E são eles, no fim das contas, que dependem de que o sistema seja não apenas operacional, mas também transparente e devidamente fiscalizado.
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