

A capital acreana se prepara para uma nova mudança em seu transporte coletivo. Em meio a um cenário de forte desgaste operacional, impasses com a Prefeitura e denúncias de desequilíbrio financeiro, a JTP Transportes deve assumir a operação do sistema de ônibus de Rio Branco no lugar da Ricco Transportes, atual responsável pelo serviço emergencial na cidade.
A substituição acontece após meses de agravamento da crise no transporte público da capital, marcada por redução de linhas, atrasos salariais, apreensão de parte da frota, denúncias de déficit milionário e questionamentos sobre a viabilidade da continuidade da Ricco à frente do sistema. A mudança, agora encaminhada pela Prefeitura e pela RBTrans, deve ocorrer já no início de julho, em um novo contrato emergencial.
JTP foi a única interessada e deve assumir sistema em julho

A JTP Transportes, comandada pelos empresários Paulo Henrique Wagner e Tadeu Wagner Junior, foi a única empresa a apresentar proposta no chamamento emergencial lançado pela Prefeitura de Rio Branco para substituir a Ricco. Em reunião realizada nesta quarta-feira (24), o Conselho Municipal de Transporte aprovou a tarifa técnica de R$ 11,29 por quilômetro rodado para a nova operadora, valor que servirá de base para a remuneração do contrato emergencial.
A empresa possui operações municipais em Bragança Paulista (SP) e Porto Velho (RO), além de operação escolar na região de Barueri, na Grande São Paulo.
Segundo as informações divulgadas, a empresa deverá iniciar a operação a partir de 3 de julho, data em que se encerra o vínculo contratual da Ricco com o município. A proposta apresentada pela JTP prevê uma frota de 120 ônibus convencionais com ar-condicionado e acessibilidade, sendo parte composta por veículos novos e outra por unidades seminovas com menos de dez anos de uso.
Apesar da aprovação da tarifa técnica, a passagem para o usuário permanece em R$ 3,50, com a diferença entre a tarifa pública e o custo real da operação sendo coberta por subsídio municipal. Hoje, a Ricco recebe um valor inferior, de R$ 7,47 por quilômetro rodado, um dos pontos centrais das críticas da atual operadora em relação à sustentabilidade do serviço.
Crise da Ricco abriu caminho para a troca de operadora

A chegada da JTP ocorre em meio ao colapso financeiro e operacional enfrentado pela Ricco Transportes, que vinha operando o sistema de forma emergencial em Rio Branco. Em abril, um dossiê divulgado pela própria empresa expôs a profundidade da crise e apontou um cenário de inviabilidade da operação.
Segundo o documento, entre os dias 1º e 20 de abril, a Ricco registrou receita de cerca de R$ 2,84 milhões, frente a despesas superiores a R$ 2,91 milhões, o que já gerava déficit operacional no período. Quando somadas obrigações pendentes, o passivo alcançava aproximadamente R$ 1,59 milhão em apenas 20 dias. Entre os débitos apontados estavam R$ 574 mil em salários atrasados, R$ 348 mil em vale-alimentação e mais de R$ 600 mil em encargos trabalhistas e tributos.
O dossiê também revelou que a empresa enfrentava dificuldades com credores e teve parte da frota apreendida por inadimplência, reduzindo a disponibilidade de veículos e agravando ainda mais a prestação do serviço na capital acreana.
Clique aqui e confira todas as informações do dossiê.
Ricco responsabiliza Prefeitura por desequilíbrio financeiro
No material apresentado, a Ricco atribui boa parte da crise à falta de recomposição financeira por parte da Prefeitura de Rio Branco. A empresa alegou que os repasses recebidos estavam abaixo do necessário para manter a operação de forma minimamente equilibrada.
De acordo com os números divulgados pela operadora, o custo estimado da operação no período analisado era de R$ 4,41 milhões, enquanto os repasses somaram aproximadamente R$ 2,89 milhões, deixando uma diferença superior a R$ 1,5 milhão. A concessionária também afirmou que a tarifa está congelada desde 2022, ao mesmo tempo em que os custos com combustível, manutenção, folha de pagamento e gratuidades cresceram significativamente.
A própria empresa já admitiu que não vinha conseguindo manter o nível de serviço exigido, sustentando que o atual modelo de remuneração inviabilizou financeiramente a continuidade da operação nos moldes cobrados pelo município.
Transição já começou e Ricco cobra definições da Prefeitura
Com o fim do contrato previsto para 3 de julho, a Ricco informou ter enviado ofício à Prefeitura de Rio Branco e à RBTrans pedindo esclarecimentos sobre o cronograma e os procedimentos da transição para a nova operadora. Segundo a empresa, os trabalhadores vinculados à operação já estariam em processo de aviso prévio, com prazos coincidindo com o encerramento do contrato atual.
O movimento evidencia que a troca de operadora já entrou em fase prática, embora ainda existam dúvidas sobre a forma como será conduzida a transferência do sistema, especialmente no que diz respeito à continuidade das viagens, à situação dos funcionários e ao encerramento das obrigações da atual concessionária.
Sistema vive instabilidade desde 2022 e segue sem solução definitiva
A crise do transporte coletivo de Rio Branco não começou agora. Desde 2022, o município opera sob sucessivos contratos emergenciais, sem conseguir consolidar uma concessão definitiva para o sistema. Esse modelo provisório, segundo a própria Ricco, dificultou investimentos, planejamento de longo prazo e estabilidade operacional.
No meio da crise, a Prefeitura chegou a lançar uma licitação para concessão do transporte por até 20 anos, mas o processo acabou sendo suspenso após questionamentos ao edital e acompanhamento de órgãos de controle. Com isso, a cidade permaneceu dependente de medidas emergenciais e sem uma solução estrutural de longo prazo.
Ao longo dos últimos meses, a deterioração do sistema se tornou cada vez mais visível. A Ricco já havia suspendido linhas, enfrentado pressão de trabalhadores por atrasos salariais e alertado para o risco de paralisação total do serviço, num cenário que intensificou o desgaste com a administração municipal e acelerou a busca por uma substituta.
Entrada da JTP marca nova tentativa de reorganizar o transporte da capital acreana
Com a iminente saída da Ricco, a entrada da JTP representa uma nova tentativa da Prefeitura de reorganizar o sistema de transporte coletivo da capital acreana e evitar uma interrupção dos serviços. A expectativa é de que a nova operadora assuma já no começo de julho e inicie uma fase de transição em meio a um sistema ainda fragilizado, mas com promessa de maior estabilidade operacional.
O desafio, no entanto, vai muito além da troca de empresa. A nova gestão do transporte em Rio Branco exigirá recomposição de frota, regularidade nas viagens, equilíbrio econômico-financeiro e, principalmente, a construção de um modelo contratual mais sólido, capaz de encerrar o ciclo de improvisos e sucessivas crises que marcou o setor nos últimos anos.
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